A disputa pela preferência dos passageiros mudou de patamar no transporte urbano. Além de ampliar ou renovar a frota, os sistemas de ônibus passaram a adotar medidas voltadas à qualidade da operação e à experiência de quem utiliza o serviço. Um levantamento divulgado pela Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) reúne 182 ações realizadas por nove grandes sistemas com o objetivo de qualificar o transporte coletivo e recuperar demanda.
O estudo foi divulgado em 30 de outubro de 2026 e registra um cenário de mudança no comportamento dos usuários. De acordo com os dados apresentados pela entidade, a participação declarada do ônibus nos deslocamentos caiu de 45,2% em 2017 para 30,9% em 2024. No sentido oposto, o transporte por aplicativo avançou de 1% para 11,1% no mesmo intervalo.
Os números ajudam a dimensionar o desafio enfrentado pelo setor: tornar o ônibus uma opção mais conveniente e competitiva para diferentes perfis de passageiros. A perda de participação não é apresentada apenas como uma questão de preferência individual, mas como um sinal de que os sistemas precisam responder às novas expectativas de deslocamento nas cidades.
Medidas vão além da renovação da frota
O levantamento da NTU não se limita à compra de veículos ou à substituição de ônibus antigos. As 182 ações mapeadas abrangem iniciativas relacionadas à operação, à melhoria do serviço e à experiência do passageiro. Como a divulgação apresenta o conjunto de medidas de forma agregada, sem detalhar a distribuição por cidade ou empresa, não é possível atribuir cada ação a um sistema específico.
Essa abordagem amplia a compreensão sobre o que significa qualificar o transporte coletivo. Um ônibus mais moderno pode contribuir para a melhoria do serviço, mas a atratividade também depende de um conjunto de fatores ligados ao funcionamento cotidiano das linhas e à percepção do usuário durante a viagem. A recuperação da demanda, portanto, envolve mais do que a renovação física dos veículos.
Ao reunir experiências de nove grandes sistemas, a NTU apresenta um panorama das respostas que vêm sendo adotadas pelo segmento empresarial do transporte urbano. O mapeamento permite observar que a tentativa de reconquistar passageiros ocorre por diferentes frentes, sem que a entidade concentre a análise em uma única cidade ou empresa.
Aplicativos ampliaram a pressão sobre os ônibus
A evolução registrada no uso do transporte por aplicativo é um dos principais elementos do cenário apresentado. Entre 2017 e 2024, a participação dessa modalidade nos deslocamentos declarados passou de 1% para 11,1%. No mesmo período, o ônibus perdeu espaço, recuando 14,3 pontos percentuais, de acordo com os dados divulgados pela NTU.
O avanço dos aplicativos aumenta a pressão para que o transporte coletivo ofereça uma experiência capaz de competir em aspectos valorizados pelos usuários. Entre eles estão a conveniência da viagem e a confiança no funcionamento do serviço. O levantamento não informa quais iniciativas tiveram maior impacto individual sobre a demanda, mas mostra que os sistemas vêm procurando responder a esse ambiente mais competitivo.
Para o passageiro, o resultado desse movimento pode aparecer em mudanças na forma como o serviço é organizado e apresentado no dia a dia. A qualidade percebida não depende somente do veículo, mas também da relação entre o usuário e o sistema de transporte. Por isso, ações operacionais e medidas voltadas à experiência têm papel central na estratégia de recuperação de passageiros.
Desafio é transformar iniciativas em aumento de demanda
A divulgação das 182 ações também evidencia que a recuperação do transporte por ônibus é um processo amplo. A existência de iniciativas em nove grandes sistemas indica mobilização setorial, mas os dados apresentados não permitem concluir que todas tenham produzido os mesmos resultados ou que tenham sido aplicadas de maneira idêntica.
O principal indicador de mudança continua sendo a participação do ônibus nos deslocamentos. A queda observada até 2024 mostra que o setor enfrenta uma tarefa de longo prazo: recuperar a confiança e a preferência de parte dos usuários que migraram para outras alternativas. Nesse contexto, a continuidade das ações e a avaliação de seus efeitos serão fundamentais para saber quais medidas conseguem gerar resultados concretos.
Segundo a NTU, o levantamento foi organizado para mostrar iniciativas de qualificação do serviço e de recuperação de passageiros. A entidade não detalha, na publicação consultada, um cronograma nacional para as próximas etapas nem apresenta uma meta única de retomada da demanda. O cenário descrito, porém, reforça que a competitividade do ônibus dependerá da combinação entre operação mais eficiente, melhor experiência e capacidade de acompanhar as transformações na mobilidade urbana.