Ernesto Kenji Igarashi, com sua experiência de especialista em segurança institucional e proteção de autoridades, apresenta a seguinte situação: dois profissionais entram no mesmo curso, tiram certificações parecidas e começam com remunerações equivalentes. Alguns anos depois, um coordena operações críticas e o outro segue na mesma função de sempre. A diferença raramente está na técnica; na verdade, está em dois recursos que quase ninguém trata como parte da formação: a mentoria e o networking.
O detalhe incômodo é que essas duas alavancas quase nunca são ensinadas. A grade técnica cobre protocolo, legislação, gestão de risco e resposta a incidente. Ninguém senta o profissional para explicar como escolher um mentor, como manter uma rede viva ou por que a pessoa certa dentro de uma sala pode encurtar anos de tentativa e erro. Formamos gente tecnicamente competente e estrategicamente sozinha.
Será que o mentor realmente puxa você para cima?
Existe uma fantasia comum sobre mentoria: a de que o mentor é alguém que puxa você para cima, apresenta as pessoas certas e resolve o acesso. Na prática, o valor está em outro lugar. Um bom mentor já cometeu os erros que você está prestes a cometer e consegue apontar a parede antes de você caminhar em direção a ela. Ele não encurta o trajeto porque conhece gente influente; encurta porque conhece o terreno e sabe onde estão os buracos.
Isso muda o critério de escolha. Não se procura o nome mais poderoso, e sim quem viveu o problema que você tem agora. Um coordenador que já montou o plano de contingência de um evento de grande porte ensina mais sobre esse desafio específico do que um diretor distante da operação. A proximidade com a dor concreta vale mais do que a altura do cargo.
Networking não é colecionar contatos, é manter poucos vivos
A palavra networking envelheceu mal. Virou sinônimo de trocar cartão, empilhar conexões e cumprimentar desconhecidos em evento. Rede de verdade é o contrário disso: poucas relações, cultivadas com regularidade, em que existe troca real. Dez pessoas que atendem seu telefone às onze da noite valem mais que mil seguidores que não lembram seu nome.
O que é networking profissional na prática?
Dentre o conceito apresentado, é importante destacar que o networking profissional é a manutenção ativa de um pequeno grupo de relações de confiança em que informação, indicação e ajuda circulam nos dois sentidos. Assim, não é volume de contatos, é frequência e reciprocidade.

Essa reciprocidade é o ponto que mais gente ignora. Quem só aparece quando precisa de algo queima a própria rede em poucos anos. Ernesto Kenji Igarashi aponta que os profissionais que sustentam relações duradouras no setor são os que oferecem antes de pedir: passam uma informação útil, indicam alguém para uma vaga, avisam sobre um risco iminente. A conta fecha no longo prazo, nunca no imediato.
Por que o setor esconde essas alavancas?
Há uma razão cultural para o silêncio em torno do assunto. Segurança é uma área que valoriza discrição, hierarquia e mérito técnico visível. Pedir ajuda pode soar como fraqueza; admitir que uma indicação abriu uma oportunidade parece diminuir o próprio esforço. Então o tema fica no não dito, e cada geração redescobre sozinha o que poderia ter aprendido sem custo.
O silêncio não elimina o mecanismo. Só o torna invisível para quem mais precisaria dele. Portanto, quem já vem de família com trânsito no setor aprende as regras em casa; já quem chega de fora leva anos para perceber que existia um jogo paralelo acontecendo o tempo todo. Ernesto Kenji Igarashi elucida que essa assimetria de acesso, e não a de talento, explica boa parte das carreiras que estacionam sem motivo aparente.
O erro de esperar o momento certo para começar
Muita gente adia mentoria e rede para quando “estiver mais preparada”. É o raciocínio invertido. Ninguém procura mentor depois de resolver os problemas; procura justamente para resolvê-los. E rede não se constrói no dia em que se perde o emprego, quando o desespero fica evidente em cada mensagem enviada às pressas. Constrói-se antes, sem urgência, quando a relação ainda pode ser genuína.
Começar cedo tem uma vantagem silenciosa. As pessoas com quem você cresce sobem junto. O colega de hoje é o gestor de amanhã. Ernesto Kenji Igarashi comenta que grande parte das oportunidades relevantes de uma carreira chega por vínculos criados muito antes de qualquer necessidade prática aparecer.
A carreira se constrói em rede
O modelo antigo, aquele em que bastava fazer bem o próprio trabalho e esperar o reconhecimento, sempre foi meia-verdade. Competência é a base: sem ela, nada se sustenta. Mas competência isolada avança devagar. O profissional que combina domínio técnico com uma rede viva e a orientação de quem já trilhou o caminho não trabalha mais que os outros. Trabalha com menos ruído, menos retrabalho e muito menos tempo perdido em erros evitáveis.
Talvez a virada de mentalidade mais útil seja parar de enxergar mentoria e networking como atalhos oportunistas e passar a tratá-los como parte do ofício. Ernesto Kenji Igarashi resume que carreira, no fundo, é um esporte coletivo disfarçado de conquista individual, e que reconhecer isso cedo é o que separa quem acelera de quem apenas persiste.